sábado, 21 de fevereiro de 2009

Avaliação Precisa

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Ergômetro avalia a real condição física de cadeirantes e pode ser usado para tratamentos e treinamentos de atletas paraolímpicos.

Nas Paraolimpíadas de 2004, em Atenas, o Brasil ficou com a 14ª posição no quadro de medalhas. O desempenho nos jogos de Pequim foi ainda melhor: o País terminou na nona posição. Hoje, o Brasil é considerado uma potência mundial nos esportes praticados por deficientes. Nomes como Daniel Dias, Clodoaldo Silva, André Brasil, Daniele Silva, Antônio Tenório, Lucas Prado e Dirceu Pinto compõem uma geração de bons atletas que estão fazendo do Brasil uma referência nas Paraolimpíadas. Um projeto idealizado por professores da Faculdade de Engenharia Mecânica da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) ajudará ainda mais os esportistas paraplégicos brasileiros a se firmarem entre os melhores do mundo.
O equipamento permite a realização de testes para a avaliação da capacidade física do cadeirante, seja ele praticante de esportes ou não.
O projeto prevê a construção de um ergômetro para cadeirantes que irá avaliar, de forma confiável, a real condição física do deficiente. Previsto para ser comercializado a partir de 2010, o equipamento poderá também ser utilizado para treinamentos que irão melhorar a eficiência muscular, para exercícios de fisioterapia e avaliações cardiológicas.
O ergômetro é um aparelho independente composto por uma cadeira ligada a um computador. Este recebe as informações referentes ao esforço do cadeirante e consegue, assim, fazer uma análise de sua verdadeira condição física. Ao invés de rodas, o equipamento possui aros que a pessoa propulsiona de forma semelhante ao que faz numa cadeira de rodas convencional.
O ergômetro para cadeirantes surge num momento importante para os deficientes físicos brasileiros. Atualmente, os equipamentos existentes não suprem completamente as necessidades dessas pessoas. Aparelhos como bicicletas estacionárias e ciclo ergômetro de braço são utilizados para aumentar a extensão dos movimentos do quadril, joelho e tornozelo, auxiliando no fortalecimento e reabilitação de músculos específicos. Porém, nenhum desses simula a condição real de funcionamento de uma cadeira de rodas, como o movimento que um atleta paraolímpico faz.
Além de suprir uma carência no mercado nacional, o ergômetro para cadeirantes pode impulsionar a criação de outros projetos voltados para os deficientes físicos. Mesmo com o surgimento da Lei Federal 7853/89, que estabelece normas que asseguram o pleno exercício dos direitos individuais e sociais das pessoas portadoras de deficiência, promovendo maior inclusão na sociedade, ainda existe uma grande carência de métodos, processos e equipamentos de avaliação das capacidades físicas dos cadeirantes, principalmente na área do esporte. Segundo o professor da Faculdade de Engenharia Mecânica da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e um dos idealizadores do projeto, Cleudmar Araújo, a literatura mundial também fica devendo em relação ao desenvolvimento de métodos que determinem as reais condições dos deficientes em termos de preparação física: “Os testes atualmente existentes nessa área não preenchem completamente as necessidades impostas por essa população. Alguns equipamentos foram desenvolvidos para a aplicação de testes anaeróbios para pessoas com deficiências, sendo que estes são oriundos de testes já existentes aplicados às pessoas não portadoras de deficiências”.
De acordo com o pesquisador, o ergômetro para cadeirantes irá realizar testes aeróbicos e anaeróbicos, visando a uma melhor avaliação da capacidade física do deficiente, respeitando o seu efetivo gesto motor de propulsão da cadeira.
Outro objetivo do ergômetro para cadeirantes é fazer com que o usuário comum ou o atleta paraolímpico melhore sua condição para uma eficiente propulsão da cadeira de rodas. Isso porque, além de ter as dimensões padronizadas de uma cadeira de rodas projetada para suportar até 180 kgf (quilogramas força) e possuir uma estrutura de apoio rígida e ao mesmo tempo leve, o que facilita o seu transporte, o equipamento é funcional, possui diferentes níveis de intensidade de torques (força de rotação), é confortável e tem o intuito de proporcionar aos cadeirantes uma avaliação mais ampla e criteriosa do seu condicionamento através de diferentes testes físicos.
A partir dos resultados, é possível elaborar treinamentos específicos e desenvolver as capacidades de resistência e potência
O ergômetro é dividido em dois módulos, sendo um de acionamento e um de geração de resistência constituído com um sistema eletromagnético ligado diretamente ao eixo dos aros. Isso foi possível graças a uma parceria com a empresa Movement (Divisão da Brudden Equipamentos), de Pompéia (SP), que se interessou pelo projeto e forneceu detalhes técnicos do sistema de geração de resistência eletromagnético. Todo esforço do cadeirante é repassado a um programa de computador desenvolvido em ambiente LabView que monitora as atividades realizadas pelo deficiente. Com isso, é possível avaliar o seu condicionamento físico, como a aplicação do teste de Wingate, que é utilizado para avaliar a capacidade anaeróbia em condições de máxima potência.
Formada por professores, mestrandas e técnicos da Faculdade de Engenharia Mecânica, a equipe de pesquisa conta ainda com os professores da Faculdade de Educação Física Sílvio dos Santos e Alberto Martins, que são membros da Equipe Paraolímpica Brasileira e estiveram com a delegação do País nos jogos de Pequim.
Vale ressaltar que existem sistemas similares ao do ergômetro para cadeirantes no exterior, porém, o custo é elevado e de difícil acesso para os centros de pesquisa, treinamento ou tratamento dos deficientes físicos. Araújo destaca que, por ainda ser um protótipo, não é possível estimar quanto o ergômetro custará, mas adianta que o valor final será bem menor do que o de um equipamento com as mesmas características que seja comercializado fora do País: “Nosso objetivo é fabricá-lo com um custo acessível para os centros de treinamento do Brasil”.
O projeto, que é financiado pela FAPEMIG, CNPq e Capes, completou em dezembro dois anos de trabalho. Durante esse tempo, o equipamento passou por alguns processos de aperfeiçoamento. A estimativa é que o ergômetro para cadeirantes possa chegar ao mercado num prazo de dois anos.
Por ser um produto desenvolvido no Brasil, existe uma boa perspectiva de investimento do setor produtivo, pois o ergômetro para cadeirantes surge como um equipamento que vai auxiliar os deficientes físicos de diversas formas, desde uma preparação mais especializada a avaliações e tratamentos mais específicos.
Pedro Henrique Vieira
PROJETO: “Projeto e construção de um ergômetro nacional adaptado a uma cadeira de rodas”
Revista Minas Faz Ciência Nº 34 (Jun a ago de 2008)

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