terça-feira, 18 de maio de 2010

Como treinar um ser humano

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A animação "Como treinar o seu dragão" dá um importante exemplo no sentido da inclusão
Daniel Bushatsky

Não li ou ouvi, em qualquer meio de comunicação, sobre um fato em especial do belo filme da Pixar Como treinar o seu dragão.
O filme rodeia um tema desde que o dragão Banguela se machuca e, a princípio, não consegue mais voar, até o final do filme, quando o personagem principal, Soluço, vira o herói da aldeia viking.
Alguns leitores podem achar que estou falando do desenvolvimento linear do personagem Soluço, de medroso, desajeitado, ruim com mulheres a salvador da ilha viking, habilidoso e garanhão, mas não estou.
Me refiro a algo muito mais comovente e profundo, que é a deficiência física que o dragão Banguela adquire na começo do filme (perda de parte da cauda) e a do garoto Soluço, no final do filme, que perde parte da perna. Coincidência, não?
Quando e quantos filmes vocês já viram, ainda mais em um desenho hollywoodiano, que o personagem principal é deficiente físico? Nenhum, aposto. E os dois, então! Quando percebi, aplaudi de pé! Uma iniciativa e uma coragem única.
Não obstante eu ser favorável e já defendi isto outras vezes , a políticas públicas de inclusão dos deficientes físicos, com obras públicas, deduções de impostos e criação/manutenção de centros esportivos e recreativos destinados a eles, nada vence um desenho animado na importante tarefa de inclusão e perda do preconceito.
Com este desenho, crianças especiais poderão ver que até, digo, inclusive, os desenhos animados podem ter algum tipo de deficiência e serem muito felizes. Já as crianças "normais" podem ver que crianças especiais podem brincar da mesma forma que elas e com elas.
Fora isto, a oportunidade de se verem retratadas na telinha também é mágica. Cria-se uma identificação com o personagem que pode acabar servindo de modelo e herói.
Se antes uma criança especial não poderia vestir fantasia alguma para se inspirarem nos seus desenhos animados favoritos, hoje podem se vestir de Banguela ou Soluço.
E mesmo dois deficientes podem brincar, se divertir e se destacar no grupo, conquistando o amor da menina mais bonita, que não o deixou só por ele ter virado deficiente físico. A menina incentivou-o e o acolheu. Enfim, serem felizes.
Caro leitor, desculpem a repetição indiscriminada da palavra feliz, mas há conceito mais importante e perseguido?
Só para confirmar minha posição, indico a leitura do livro O olho mais azul, de Toni Morrison, que conta a história de uma menina negra, pobre e feia, nos Estados Unidos, que sonhava ganhar de presente uma boneca negra, que se parecesse com ela. Ela estava cansada (sem saber) do padrão de beleza Barbie: loira, alta, magra, de olhos azuis.
Por outro lado, para incentivar a leitura de como dedicação, carinho e aceitação são os verbos mais cobiçados pelos deficientes físicos, recomendo a leitura do livro Guerreiros Paraolímpicos Vida e Magia, de Patrícia Osandón.
O livro realça a humildade e a trajetória vencedora dos atletas, lembrando de dar voz própria a eles. Rivaldo Martins, bicampeão mundial de Ironman em 2001 e 2003, na categoria Physically Challenged, que teve a perna esquerda amputada após um acidente de ônibus, faz o seguinte depoimento no livro: "o processo de inclusão social tem ajudado bastante. Mas, infelizmente, muitas coisas têm que ocorrer por pressão. Não adianta ficarmos falando palavras lindas se não há acessibilidade e condições para que a pessoa com deficiência possa viver. É preciso que as leis sejam cumpridas de verdade".
É justamente o que o filme faz. Não fala, mostra e inclui, sem ser forçado!
A lição dada pelos criadores desse mágico filme é clara: não basta pseudoincentivos, que ninguém vê. Para aceitarmos os deficientes e eles nos aceitarem precisamos primeiro perder o preconceito; depois, viver em harmonia.
Para considerarmos alguém "normal", precisamos aceitar e incluir. Todos podem fazer sua parte, antes que somente pelo fogo de um dragão sejamos capazes de entender! Mas se formos obrigados a entender, estaríamos realmente entendendo?
Vale informar duas curiosidades. No livro que inspirou o filme, Soluço não é e nunca foi deficiente físico. Ponto para a Pixar. Fora isto, o livro não prega harmonia alguma entre dragões e vikings. Pelo contrário, na batalha final os dragões fogem da aldeia e dos cruéis humanos. Outro ponto para a Pixar.
No filme há um mútuo treinamento, tanto os dragões percebendo que os humanos só eram tão agressivos por preconceito, quanto os humanos percebendo o quão dóceis podem ser os dragões, a ponto de virarem bichinhos de estimação. Os dois lados cedem e aceitam! Enfim, superam-se!
Caso não haja a tomada de consciência necessária para a harmonia e inclusão dos deficientes físicos, somente uma única alternativa restará à Pixar. Fazer um filme intitulado: Como treinar um ser humano.
E parece que já estão fazendo!

Fonte: Digestivo Cultural

DEFICIENTE ALERTA foi criado para orientar,educar,protestar e ajudar todos com deficiência. www.deficientealerta.blogspot.com

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